Antes da próxima crise acontecer: por que a liderança feminina importa na gestão de riscos climáticos
Embora os riscos climáticos afetem comunidades inteiras, seus impactos não são sentidos de forma igual. Quando um desastre natural ocorre, as mulheres têm 14 vezes mais probabilidade de morrer em suas consequências. E quando as pessoas são deslocadas devido aos impactos das mudanças climáticas, as mulheres representam 80% desse total.
Essas realidades preocupantes estão se desenrolando enquanto cidades em todo o mundo tomam decisões sobre como enfrentar os efeitos das mudanças climáticas por meio de políticas, investimentos e processos de tomada de decisão voltados à construção da resiliência.
“As mulheres frequentemente sofrem impactos desproporcionais devido a desigualdades estruturais, incluindo acesso desigual a recursos econômicos, educação e poder de decisão, o que dificulta sua capacidade de se recuperar após os eventos”, afirma Vitória Passos, gerente de Risco e Resiliência Urbana da Prefeitura de Recife, Brasil.
Ela acrescenta: “Ao mesmo tempo, as mulheres desempenham um papel crítico na construção da resiliência comunitária, contribuindo para a preparação para desastres, resposta comunitária e recuperação de longo prazo, frequentemente atuando como primeiras respondentes, cuidadoras e líderes informais em suas comunidades.”
Os efeitos das mudanças climáticas são particularmente visíveis no Brasil. Devido às suas dimensões continentais e ecossistemas complexos, o país está entre os mais vulneráveis a desastres relacionados ao clima, desde enchentes no Sul até secas na região amazônica. Recife, capital do estado de Pernambuco, no Nordeste, figura como a 16ª cidade mais vulnerável do mundo às mudanças climáticas, tanto em assentamentos formais quanto informais.

Nesse contexto, a liderança local torna-se crucial. Por meio da atuação de Vitória Passos no NUPDEC Mulheres – uma iniciativa pioneira em Recife que capacita mulheres líderes comunitárias em áreas de alto risco e sujeitas a inundações — e de seu envolvimento com o projeto Urban Infrastructure Insurance Facility (UIIF) do ICLEI, ela pôde observar de perto como abordagens sensíveis ao gênero na gestão de riscos climáticos não são apenas necessárias, mas já estão surgindo a partir das próprias comunidades.
Ela afirma: “As mulheres já estão lá. Elas já estão pensando sobre as mudanças climáticas e seus impactos. Já estão trabalhando nisso. A questão é: como podemos apoiá-las para fazerem isso melhor, com mais capacidade e mais resiliência?”
Em Recife, mulheres transformam desastre em liderança
Em maio de 2022, chuvas torrenciais atingiram o Nordeste do Brasil. As águas invadiram bairros em Recife, provocando deslizamentos, danificando mais de 50.000 imóveis e deixando 3.500 pessoas desabrigadas na cidade. Comunidades inteiras foram deslocadas em questão de horas.
À medida que as águas baixavam, outro padrão tornou-se evidente para Vitória Passos: as dimensões de gênero da crise, tanto na exposição quanto na resposta, eram inegáveis.
“Vimos as mulheres sendo responsáveis por proteger suas famílias”, relembra. “Elas precisam trabalhar, se organizar, sair de casa. Nos abrigos, as mulheres estão sempre lá, cuidando dos idosos da família e das crianças.” Essas responsabilidades, muitas vezes invisíveis, fazem com que as mulheres carreguem um peso desproporcional durante emergências climáticas. Para enfrentar essas desigualdades, em 2023 Recife implementou o NUPDEC Mulheres, um programa criado por mulheres para mulheres, baseado em suas experiências vividas durante emergências climáticas.
O NUPDEC Mulheres, parte do ProMorar Recife – um programa municipal voltado à melhoria de comunidades vulneráveis – é uma iniciativa pioneira no Brasil, sendo o primeiro treinamento de resposta a desastres direcionado diretamente às mulheres, com o objetivo de integrá-las ao Sistema de Proteção e Defesa Civil de Recife. Isso significa que as participantes são formalmente reconhecidas dentro do sistema de preparação e resposta a desastres da cidade, não apenas como agentes informais, mas como contribuidoras ativas no planejamento e na governança de riscos.
A iniciativa combina teoria e prática, com treinamentos realizados diretamente nos bairros das participantes sobre primeiros socorros, mudanças climáticas e resiliência, habitação segura e mapeamento social. As mulheres também lideram simulações de emergência, desenvolvendo rotas de evacuação adaptadas localmente e estratégias de resposta. Para garantir ampla participação, o programa oferece apoio logístico, como transporte e espaços adequados para crianças.

Seu impacto vai além do desenvolvimento de habilidades. Como observa Vitória: “Após os treinamentos, vimos uma mudança real; agora elas são reconhecidas dentro de suas comunidades. Essas mulheres são líderes.”
Desde 2023, mais de 100 mulheres foram capacitadas por meio do NUPDEC Mulheres, juntamente com treinamentos mais amplos sobre gênero e desastres oferecidos a todos os membros da comunidade. O programa fortaleceu redes de apoio comunitário, ampliou a participação feminina em espaços de decisão e aumentou o reconhecimento institucional da gestão de riscos de desastres sensível ao gênero.
“Não se trata apenas de capacitar mulheres, mas de aumentar a conscientização e promover um reconhecimento coletivo das mulheres como líderes climáticas”, reflete Vitória.
Financiando resiliência inclusiva além da emergência
“Especialmente na América Latina, quando penso em resiliência climática, penso no quanto ainda precisa ser feito e nas limitações que enfrentamos”, diz Vitória Passos. “No setor público, muitas vezes precisamos focar no mais urgente. E, às vezes, a prioridade urgente é simplesmente salvar vidas durante eventos extremos.”
Essa urgência, explica ela, pode limitar o planejamento de longo prazo e inclusivo. Mulheres, crianças e pessoas com deficiência frequentemente só são consideradas após os desastres, em vez de serem incluídas em políticas preventivas baseadas em risco.
Para Vitória, iniciativas como o Urban Infrastructure Insurance Facility (UIIF), do ICLEI, oferecem uma forma de mudar esse padrão.
Ao permitir que as cidades avaliem riscos de forma preventiva e utilizem instrumentos financeiros que fortalecem a resiliência ao proteger infraestruturas críticas e a população, o UIIF abre espaço e capacidade financeira para integrar considerações de gênero na gestão de riscos e nas decisões de investimento público.
“Quando pensamos em questões financeiras, ter um programa como o UIIF pode mudar a forma como planejamos, não apenas reagindo, mas também prevenindo. Podemos planejar não só para cinco anos, mas ir além”, explica.
Vitória também destaca o valor da troca de conhecimento. Por meio do UIIF, cidades participantes no Brasil, Argentina e em toda a América Latina e Caribe podem se conectar e fortalecer o aprendizado coletivo. “Podemos nos encontrar, nos conectar com outras cidades e compartilhar o que estamos aprendendo”, acrescenta.
Empoderando jovens na ação climática
O trabalho de Vitória com gênero e resiliência climática também vai além da atuação municipal em Recife. Desde 2024, ela atua como gerente de projetos voluntária na EmpoderaClima, uma ONG brasileira focada na educação climática para jovens, especialmente mulheres. A organização empodera meninas do Sul Global por meio de educação climática, advocacy, capacitação e materiais educativos.
“O principal objetivo era capacitar mulheres que já eram líderes em suas comunidades, para que pudessem melhorar sua capacidade de responder melhor aos desastres”, afirma, ao falar sobre a iniciativa Mulheres pela Resiliência Climática, presente em várias regiões do Brasil.

O foco da EmpoderaClima em jovens mulheres é intencional. “Vimos uma falta de educação, especialmente na América Latina”, explica. “Então, como podemos enfrentar as mudanças climáticas e agir? Precisamos conscientizar, precisamos trabalhar com educação. Vamos capacitar jovens mulheres.”
Por meio da educação, do empoderamento e da participação em espaços internacionais — como delegações em conferências climáticas — muitas participantes ampliaram suas perspectivas e ganharam confiança para atuar em políticas climáticas internacionais ou seguir estudos no exterior.
Como os governos locais podem agir?
A resiliência climática sensível ao gênero já está em prática diariamente — embora os esforços das mulheres em todo o mundo tenham sido historicamente sub-reconhecidos. Desde a preparação comunitária para desastres até a educação climática de jovens e o planejamento inclusivo, o trabalho de Vitória Passos demonstra como as comunidades se tornam mais fortes e resilientes quando as mulheres são apoiadas como líderes.
Ao ser questionada sobre que conselho daria a mulheres que desejam atuar na área de resiliência climática, mas não sabem por onde começar, sua resposta foi: “Comece acreditando em si mesma. Busque informação, procure ONGs, procure pessoas na sua comunidade. Você não está sozinha.”
E se ainda não existir espaço? “Tente ser quem inicia esse movimento. Apenas comece.”

