Três pilares para empoderar mulheres no financiamento climático e de riscos de desastres: superando a lacuna de gênero
“Perigos naturais, como enchentes, secas e terremotos, são neutros em relação ao gênero, mas seus impactos não são.” Essa afirmação do Banco Mundial destaca as desigualdades que as mulheres enfrentam ao vivenciar riscos climáticos, especialmente quando se trata de finanças. Com 742 milhões de mulheres excluídas dos serviços financeiros em todo o mundo e metade enfrentando dificuldades para garantir recursos de emergência em um mês, torna-se desafiador para os governos locais elaborar políticas de construção de resiliência. Desde aumentar a conscientização e coletar dados desagregados por sexo até incentivar a participação das mulheres, compreender as diferenças de gênero pode ajudá-los a desenvolver políticas mais eficazes, melhorando a resiliência sem deixar ninguém para trás.
À medida que o mundo vivencia mais um verão com temperaturas recordes, também tem testemunhado um aumento preocupante de desastres naturais. É aqui que um fato-chave se torna relevante: “Homens e mulheres, meninos e meninas, são afetados de forma diferente por desastres, mesmo que vivam na mesma residência” (Banco Mundial, 2021). Por quê? As expectativas sociais designam as mulheres como cuidadoras em muitas sociedades, limitando sua mobilidade durante situações de risco e afetando sua saúde e segurança. As disparidades econômicas também influenciam os aspectos financeiros, pois, em muitas regiões, as mulheres têm menos acesso a recursos econômicos, tornando mais difícil sua recuperação após um desastre. Por fim, a exclusão das mulheres dos processos de tomada de decisão nos níveis comunitário e doméstico dificulta a consideração de suas necessidades específicas durante a resposta e a recuperação de desastres.
As disparidades enfrentadas pelas mulheres estão presentes em todos os aspectos de suas vidas. Por exemplo, as mulheres dependem mais dos serviços de transporte público do que os homens e têm maior probabilidade de realizar viagens com múltiplas paradas devido às responsabilidades domésticas, incluindo levar crianças à escola e fazer compras. Apesar de suas diferentes necessidades e padrões de mobilidade, o transporte público frequentemente não atende aos requisitos de qualidade, segurança e conforto das mulheres. Além disso, experimentar níveis mais baixos de inclusão financeira e acesso a instrumentos financeiros é algo comum para as mulheres, particularmente em economias em desenvolvimento, onde os governos locais são desproporcionalmente afetados por riscos climáticos, apesar de contribuírem muito pouco para as mudanças climáticas.
Embora tenha havido progresso na última década, de acordo com o Banco Mundial (Global Findex Database 2021), 742 milhões de mulheres ainda estão excluídas dos serviços financeiros. A independência financeira e o empoderamento econômico são especialmente cruciais para a resiliência diante de eventos climáticos extremos. Pesquisas sugerem que quase metade das mulheres no mundo tem dificuldade em acessar dinheiro emergencial em até 30 dias. Portanto, é fundamental que os governos locais integrem suas estratégias com ações sensíveis ao gênero para superar as desigualdades enfrentadas pelas mulheres. Três pilares cruciais devem ser considerados para fortalecer a inclusão feminina: aumentar a conscientização dos atores envolvidos, coletar dados desagregados por sexo e implementar políticas sensíveis ao gênero. Essas contribuições foram apresentadas durante a sessão do Fórum Virtual Daring Cities 2023 intitulada: “Quem recebe o quê em um desastre climático?”, que reuniu especialistas da InsuResilience Global Partnership juntamente com representantes de cidades para discutir a importância de os governos locais integrarem considerações de gênero em suas iniciativas de financiamento de riscos.
- Aumento da conscientização
Este é um passo fundamental para reduzir as lacunas de gênero no financiamento de riscos de desastres. As mulheres frequentemente estão na linha de frente dos impactos das mudanças climáticas, desde a gestão dos recursos domésticos até o cuidado com suas famílias. O aumento da conscientização sobre essas questões específicas de gênero pode resultar na elaboração de políticas mais eficazes. Os tomadores de decisão podem projetar políticas que abordem esses problemas de forma mais eficiente quando conhecem as necessidades e dificuldades específicas enfrentadas por diferentes gêneros. Além disso, as comunidades podem ser capacitadas a participar ativamente da construção da resiliência se estiverem cientes dessas questões. Um exemplo de fortalecimento da resiliência das mulheres é a abordagem em camadas de risco do Programa Mundial de Alimentos, que utiliza diferentes níveis de estratégias de seguro climático para empoderar financeiramente as mulheres, apoiando-as na proteção e no fortalecimento de seus meios de subsistência.
- Dados desagregados por sexo
Embora os perigos naturais não tenham como alvo um grupo específico, seus impactos não são sentidos da mesma forma. Por isso, coletar e utilizar dados desagregados por sexo é crucial para compreender como os riscos afetam diferentes gêneros, a fim de criar mecanismos eficazes de financiamento de riscos de desastres. Esses dados podem revelar vulnerabilidades específicas de gênero e orientar intervenções direcionadas. Por exemplo, os dados podem mostrar que as mulheres têm maior probabilidade de ter menor acesso a recursos e enfrentar dificuldades econômicas após desastres, tornando essencial a criação de soluções financeiras que atendam às suas necessidades específicas. Esses dados devem orientar iniciativas como o Fundo Internacional de Perdas e Danos, estabelecido durante a COP27, que busca garantir a inclusão.
- Políticas sensíveis ao gênero
Os governos locais podem desempenhar um papel fundamental na promoção da inclusão ao implementar políticas de financiamento climático e de riscos de desastres sensíveis ao gênero, bem como na aplicação de soluções inteligentes de financiamento e seguro de riscos climáticos e de desastres (CDRFI). É essencial introduzir uma perspectiva de gênero em todas as fases da formulação de políticas, desde a análise inicial até as atividades de monitoramento e avaliação, garantindo coordenação e integração na implementação dessas políticas. Os desafios relacionados ao gênero ultrapassam fronteiras, e a cooperação internacional possibilita a troca de recursos e conhecimentos para enfrentar questões como violência de gênero, acesso desigual à educação e disparidades econômicas, resultando em uma implementação de políticas mais eficaz e abrangente. Além disso, a participação ativa das mulheres em todos os aspectos da formulação e implementação de políticas é fundamental para alcançar resultados sustentáveis e equitativos.
À medida que o mundo enfrenta um número crescente de perigos naturais, é fundamental que as mulheres não sejam deixadas para trás nos esforços de financiamento de riscos de desastres. As experiências e perspectivas únicas das mulheres são inestimáveis para o desenvolvimento de soluções eficientes de adaptação e recuperação. A promoção da conscientização, a coleta de dados desagregados por sexo e a formulação de políticas inclusivas são passos essenciais rumo a um futuro mais justo e resiliente. Como exemplo de um projeto do ICLEI que leva isso em consideração, o Urban Infrastructure Insurance Facility (UIIF) apoia governos locais a incluir uma agenda de gênero ao projetar produtos de seguro para aumentar a resiliência financeira de grupos vulneráveis, especialmente mulheres. Superar a lacuna de gênero no financiamento de riscos de desastres e no planejamento urbano abre caminho para um futuro inclusivo, no qual todas as vozes não apenas são ouvidas, mas são fundamentais na formulação de políticas que protegem e empoderam todas as comunidades, especialmente aquelas mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas.
